Capítulos 08 e 09
Cap. 08 – Fazendo o bem olhando muito bem à quem
“Espera aí, rapaz” disse o sujeito do olhar indiferente. “Eu pago pelo que ele comeu” “É bom mesmo, está livrando o pobre de apanhar”.
“Você vive de pequenos golpes?” “Ainda não sei se vivo” “Não sabe se vive?” “Por enquanto não” “Por enquanto?!? Enfim, pra onde vai?” “Pra lugar nenhum, a princípio” “Você não me parece bêbado” “Lhe pareço qualquer outra coisa?” “Bom, vamos conversando enquanto caminhamos” “Talvez nada nos impeça”
Um grande esforço feito por Clauto nesse instante foi para se concentrar em desvendar o que se passava pela cabeça do sujeito do olhar indiferente; as mais altruístas intenções que motivaram o estranho a poupar os ossos pêuticos de serem moídos; Clauto logo deduziu que se não arriscasse estaria inerte até agora, olhando para a vitrine e sendo olhado, quem sabe, por ela.
Cap. 09 – Nove, este número de sorte!
Ela mantém os olhos abertos. Sim, porque assim achamos que estamos mais alertas aos perigos desta vida inerte, porém serelepe, muitas das vezes.
Ela fixa o teto nos olhos – ou vice-versa – e reflete sobre sua condição. Uma chance, um chute, um gol. Ela calcula todas as variáveis necessárias, traça tangentes, esquadrinha versos, mede sílaba por sílaba, afasta as letras aziagas – quais seriam estas? – esboça planos alternativos, perde algum tempo, mas sabe que não há como adiar o inevitável. Mas também não sabe ainda que as engrenagens do destino têm dentes gastos. O que pode e o que não pode ser estão espalhados em desigualdade por aí, morando em cada instante, por menores que sejam.
A solidão já lhe doeu mais. Hoje não passa de uma débil companheira, que resmunga para ser ouvida à contragosto. Resolveu com maestria a questão da permanência da ausência ao seu lado. Minou as forças dela abdicando da desfavorável luta que até então travara, sem sucesso. Ironicamente, enfraqueceu sua oponente se expondo. Deu certo. Equacionou-a. Mas essa não era a primeira nem a última de suas preocupações; precisava de uma chance, qualquer que fosse, para escapar de um casamento que lhe fora arranjado sem consulta prévia. Sem qualquer consulta que fosse, prévia ou póstuma, melhor dizendo. Seu pretendente era um escritor tcheco que havia nascido lá mesmo, em Praga, e fora morar com os avós em Dublin.
“Espera aí, rapaz” disse o sujeito do olhar indiferente. “Eu pago pelo que ele comeu” “É bom mesmo, está livrando o pobre de apanhar”.
“Você vive de pequenos golpes?” “Ainda não sei se vivo” “Não sabe se vive?” “Por enquanto não” “Por enquanto?!? Enfim, pra onde vai?” “Pra lugar nenhum, a princípio” “Você não me parece bêbado” “Lhe pareço qualquer outra coisa?” “Bom, vamos conversando enquanto caminhamos” “Talvez nada nos impeça”
Um grande esforço feito por Clauto nesse instante foi para se concentrar em desvendar o que se passava pela cabeça do sujeito do olhar indiferente; as mais altruístas intenções que motivaram o estranho a poupar os ossos pêuticos de serem moídos; Clauto logo deduziu que se não arriscasse estaria inerte até agora, olhando para a vitrine e sendo olhado, quem sabe, por ela.
Cap. 09 – Nove, este número de sorte!
Ela mantém os olhos abertos. Sim, porque assim achamos que estamos mais alertas aos perigos desta vida inerte, porém serelepe, muitas das vezes.
Ela fixa o teto nos olhos – ou vice-versa – e reflete sobre sua condição. Uma chance, um chute, um gol. Ela calcula todas as variáveis necessárias, traça tangentes, esquadrinha versos, mede sílaba por sílaba, afasta as letras aziagas – quais seriam estas? – esboça planos alternativos, perde algum tempo, mas sabe que não há como adiar o inevitável. Mas também não sabe ainda que as engrenagens do destino têm dentes gastos. O que pode e o que não pode ser estão espalhados em desigualdade por aí, morando em cada instante, por menores que sejam.
A solidão já lhe doeu mais. Hoje não passa de uma débil companheira, que resmunga para ser ouvida à contragosto. Resolveu com maestria a questão da permanência da ausência ao seu lado. Minou as forças dela abdicando da desfavorável luta que até então travara, sem sucesso. Ironicamente, enfraqueceu sua oponente se expondo. Deu certo. Equacionou-a. Mas essa não era a primeira nem a última de suas preocupações; precisava de uma chance, qualquer que fosse, para escapar de um casamento que lhe fora arranjado sem consulta prévia. Sem qualquer consulta que fosse, prévia ou póstuma, melhor dizendo. Seu pretendente era um escritor tcheco que havia nascido lá mesmo, em Praga, e fora morar com os avós em Dublin.

2 Comments:
ih ala!
o clauto eh viado!
VIADA
CLAUTA
MARCA
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